A Resenha: O amor pós-romanticona era de Rudá



Storyline I:

    Uma releitura contemporânea da obra “O Banquete”, clássico diálogo de Platão que aborda a natureza e o significado do amor, atualizando o discurso com base naquilo de mais relevante que foi proferido sobre o tema nos últimos 2500 anos.

Storyline II:

   Após dedicar vida e arte em busca de compreender e dominar o amor, um cineasta orgulhoso acredita ter conquistado tudo aquilo que procurava, mas durante a festa de celebração da sua maior vitória, a ilusão de sucesso desmorona publicamente, fazendo com que ele seja obrigado a refletir sobre o mérito de suas conquistas e, principalmente, descobrir um significado completamente novo para o amor.




   A história do filme se passa nos dias atuais, em uma grande metrópole urbana da região amazônica, e consiste numa releitura moderna de “O Banquete”, uma das mais célebres obras de Platão, texto em que o filósofo disserta sobre a natureza e o significado do amor. Portanto, o filme, inspirado na obra clássica, terá o ponto alto do enredo (em seu 2º ato) seguindo a estrutura narrativa e pedagógica de um diálogo platônico. Na obra original do filósofo grego, um grupo heterogêneo de personagens se reúnem para celebrar a conquista de um prêmio importante, recebido por um amigo querido de todos e grande dramaturgo que, por sua vez, também se trata do organizador e anfitrião do seu próprio Banquete comemorativo.

   E assim, no transcorrer da comemoração, de maneira fortuita, inspirados na obra do amigo dramaturgo, e especialmente motivados pela iniciativa indagadora insaciável de Sócrates, cada um dos ilustres convidados começa a explanar, de forma especulativa, sobre a natureza e as qualidades do amor. Dessa forma, Sócrates se apresenta como o moderador do debate: provocando, questionando e excitando novas ideias. Portanto, fazendo valer a tradição dialética, ele finaliza o debate promovendo a síntese argumentativa dentre todas as ideias examinadas.

   Já o roteiro do filme, na ocasião do 2º ato de sua narrativa, acompanhará um fervoroso debate, à moda do diálogo platônico, onde o Amor será examinado em profundidade, por uma perspectiva moderna, englobando as principais contribuições da historicidade acumulada sobre o tema nos últimos 2500 anos que sucederam a obra de Platão.

   A obra do filósofo grego, ao discutir o tema, buscava se amparar, essencialmente, numa dimensão mitológica e metafísica do Amor, tradicionalmente se espelhando na representação do deus Eros.

   Em contrapartida, de maneira bastante singular, o mito de Rudá (deus do amor e da fraternidade Tupi-Guarani) será a base de inspiração alegórica a partir da qual o filme desenvolverá a tese de uma perspectiva pós-romântica do amor.

   Portanto, o debate argumentativo do filme propõe um estudo conceitual moderno sobre o Amor, dispondo-se a superar a complexidade dos domínios epistemológicos de um tratado de filosofia convencional, sobretudo em função das suas contribuições de natureza científica sobre o tema, tal como a psicologia evolucionista e a neurociência cognitiva. Todavia, apesar disso, o filme não escapará de analisar o Amor em sua dimensão metafísica, seja a partir da perspectiva clássica da filosofia (revisitando Platão e explorando outras correntes filosóficas que o sucederam), assim como, também, a partir da perspectiva simbólica da moderna tradição psicanalítica.

   Em última instância, o debate argumentativo do filme irá investigar os desdobramentos fenomenológicos do amor a partir das suas diferentes manifestações na cultura ocidental, abrangendo em perspectiva a sua historiografia: contexto geopolítico e socioeconômico, a influência de movimentos artísticos e culturais, além de mergulhar em períodos históricos específicos, tais como: antiguidade clássica, idade média, renascimento, iluminismo... até chegarmos no mundo contemporâneo e as armadilhas do amor na chamada pós-modernidade.

   Porém, o maior desafio argumentativo do filme será especular sobre a responsabilidade que cada um de nós possui sobre o futuro imediato das relações afetivas, contribuindo com a inauguração da chamada “Era de Rudá”, no campo do amor e da fraternidade.

Decifrando o título do Filme:


   A obra “O Banquete” possui um título alternativo oficial: Simpósio. Esta ultima designação é de uso mais recorrente em suas edições anglófonas.    “Simpósio”, na Grécia Antiga, se refere à segunda parte de um Banquete, ocasião dedicada a conversas de escopo intelectual, após o farto consumo de comidas e bebidas. Modernamente, a palavra “simpósio” designa um tipo de reunião em que diversos oradores, especialistas em determinado tema, debatem diante de uma plateia.

   O título “A Resenha” remete a uma forma de referência ambivalente a obra de Platão. Isto porque, o filme, por si só, pode ser encarado como uma resenha crítica sobre o já referido diálogo platônico que, por sua vez, será o ponto de partida para uma discussão ainda mais abrangente sobre a natureza e as qualidades do amor. Da mesma forma, quanto à sua concepção argumentativa, o filme foi concebido para funcionar como uma resenha crítica acerca dos valores que compõe a iniciativa do “Projeto Rudá” (uma forma de manifesto artístico da marca).

   Por outro lado, quando empregada em sentido coloquial, a palavra “resenha” costuma se referir a uma gíria brasileira que remete a uma celebração festiva entre amigos, geralmente com a finalidade de debaterem algum assunto de interesse coletivo e de forma despretensiosa.



O Homem-pássaro:


    Além de abordar o mito de Rudá como representação conceitual de uma nova perspectiva temática do amor, o roteiro do filme também apresenta uma segunda camada de inspiração alegórica: o mito grego de Ícaro.

   Na versão original do mito, Ícaro se trata de um jovem espirituoso, dotado de um par de asas artesanais, que nutre o anseio arrebatador de poder voar com a mesma destreza e ousadia de um pássaro, sempre em busca de grandes altitudes. Porém, ao longo da história, o personagem é alertado pelo seu pai quanto ao perigo de pairar próximo demais do sol, pois as suas asas eram confeccionadas de um material delicado, vulnerável ao excesso de calor. No entanto, Ícaro revela-se impetuoso e inconsequente, e assim, em determinado momento, resolve arremeter voo em direção ao sol. Neste processo, tragicamente, suas asas começam a se despedaçar e o rapaz despenca em direção ao mar Egeu, morrendo afogado.

   Portanto, dentre suas várias lições, o mito de Ícaro nos demonstra como um sujeito arrogante, destituído de prudência, torna-se incapaz de reconhecer suas próprias limitações, e mesmo sendo capaz de realizar feitos incríveis, a ambição desmesurada foi capaz de corromper o aspecto nobre e exequível do seu maior sonho, além de destruir a sua vida impiedosamente.

   Desta forma, em sua estrutura narrativa, o roteiro do filme exibirá um sistema de representação simbólico que remete ao conflito dramático e a iconografia do mito de Ícaro, a começar pelo protagonista, chamado Kauã Pessoa, que pode ser interpretado como “pessoa-pássaro” (de acordo com a raiz etimológica Tupi do seu primeiro nome). A natureza ambivalente da sua relação com o sol será explorada de duas formas: por um lado, através da grande ambição de alcançar o amor-ideal em sua plenitude e, em segundo lugar, por meio da interação conturbada e conflituosa com Hélio (personificação do sol na mitologia grega), seu grande mentor e melhor amigo. A partir desse ponto, o roteiro do filme vai explorar um entrelaçamento semiótico original entre o mito de Ícaro e o mito de Rudá, ditando um sincretismo cultural entre antiguidade clássica e folclore amazônico.



SINOPSE OFICIAL:


    Kauã Pessoa é um jovem e orgulhoso cineasta que dedicou vida e arte em função de sua maior ambição: compreender e dominar os mistérios que permeiam o significado do amor. Seu último filme, “O Paladino de Eros”, acaba de ser premiado com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, prêmio inédito para o cinema brasileiro.

   Logo em seguida, Kauã se apercebe vivendo o auge de sua carreira e vida pessoal, pois além do grande prestígio profissional conquistado por um filme romântico à moda clássica, ele também conquistara o amor de uma mulher linda, exuberante e famosa, uma verdadeira sexy symbol de expressão mundial. Tornando Kauã um sujeito digno de despertar inveja na maioria dos homens.

   E assim, Kauã resolve retornar para a sua terra natal, uma metrópole no coração da Amazônia, depois de ter passado mais de uma década distante. Ele anuncia que o objetivo da visita seria promover um magnífico banquete comemorativo. Porém, chegado o grande dia da festa, Kauã se vê obrigado a revisitar memórias dolorosas e conflitos mal resolvidos do próprio passado, o que ameaça trazer à tona as verdadeiras motivações por trás do seu retorno. Desse modo, ao ser submetido a uma progressiva tensão psicológica, a sua ilusão de sucesso desmorona publicamente, fazendo com que ele seja obrigado a lutar para salvar a própria vida, reconciliar-se com o passado, refletir sobre o mérito de suas conquistas e, principalmente, descobrir um significado completamente novo para o amor.