A divindade do Amor: Rudá



No princípio de tudo, havia apenas silêncio e escuridão

Nada havia para se ver, nem sequer existiam olhos para enxergar

O vazio reinava soberano

Assim nasceu o Sol: Guaraci

A partir do seu primeiro dia de existência, Guaraci surgiu como em todas as outras vezes: primeiramente, claridade; em seguida, aquela esfera de luz ia se avermelhando, até despejar vida em tudo que ali havia no entanto, naquele início, esse “tudo” era praticamente nada sendo assim, diante de toda aquela imensidão de vazios e hiatos, Guaraci deu início à sua criação:

Criou a água, em toda a sua exuberância, formando rios, mares e oceanos, criou terra, de todas as dimensões, cores e texturas, as quais cintilavam e dançavam ao encontrar as águas geradas por ele…

Guaraci apreciava o que via, e dessa forma, igualmente criou os ventos: ocasionalmente, avassaladores; por outras vezes, calmos e serenos. Guaraci continuou o seu trabalho, aquecendo e criando tudo o que ali existia.

Criou os peixes, os pássaros, além de vários animais que caminhavam sobre a terra… cada qual com o seu tamanho, seu perfil, sua identidade, também deu vida e forma para todo o reino vegetal ao projetar tantos seres e criaturas, tudo com tanto capricho e tanto zelo… Guaraci cansou-se e foi ficando cada vez mais exausto, fechando seus olhos, lentamente…

E quando suas pálpebras finalmente se vedaram, tudo escureceu

Guaraci nada podia olhar sobre o que havia projetado e elaborado

Na medida em que dormia, a escuridão imperava

Mas e quanto a toda aquela beleza e resplendor?

Guaraci queria poder observar todas aquelas maravilhas novamente

No entanto, estava tão exausto. E não era só isso, estava sentindo-se tão só…

Até que, nesse sono, em meio a um sonho, tragado pela escuridão, Guaraci criou a Lua: Jaci

E foi dessa forma que aconteceu

Lá, bem distante, Guaraci observou vindo uma claridade, do centro da escuridão

Então, o clarão foi aumentando, pouco a pouco, dissipando aquele escurecer da noite

Levantando-se dos céus, ela se ergueu: Jaci

Graciosa, ela se apresentava como uma esfera azul e prateada, um tom de azul único e mais exuberante que qualquer outro criado anteriormente por Guaraci

Em seguida, a Lua – Jaci – subia cada vez mais

E à medida que se elevava, sua luz tornava-se cada vez mais intensa e prateada, criando uma bela claridade, rompendo a escuridão e abrilhantando toda a natureza

Seu resplendor era encantador sobre as águas, exuberante entre as montanhas… e outros sons se faziam surgir em louvor a ela: os sons do anoitecer

Tamanha era a beleza de Jaci, a Lua, que Guaraci, o Sol, nessa mesma noite, de sonos ou sonhos, apaixonou-se por ela

Era uma sensação tão boa… inspirada por alguém tão belo…

Aquela claridade que invadia a noite revelava, de um jeito extraordinário, tudo aquilo que Guaraci havia criado

Guaraci, então, restou tão apaixonado e encantado que subitamente abriu seus olhos para observá-la e apreciá-la melhor…

Mas, ao abrir seus olhos, tudo se abrilhantava de uma forma mais intensa e expressiva, e ela sumia…

Guaraci desejava apresentar a ela o quanto era belo todo aquele cenário, com suas cores e flores

Ela, porém, não se encontrava mais ali

E assim, após tanto buscar Jaci, mais uma vez Guaraci ficou extremamente exausto… e outra vez fechou seus olhos para descansar

Enquanto dormia, surgia ela, caminhando em meio ao escuro, com seu lampejo e sua maneira de transformar o dourado em prateado

Era mesmo ela… era mesmo Jaci

E Guaraci quis falar de seu amor por Jaci e tudo de maravilhoso que existia quando ela não se encontrava ali… E também Guaraci quis lhe revelar que, quando abria seus olhos para tentar alcançá-la, tudo se iluminava e ela desaparecia

Assim, Guaraci criou Rudá, o porta-voz de seu amor

Para informá-la o que ele sentia quando ela se engrandecia na escuridão de seus sonhos

E que, na claridade de seu sono, Guaraci a admirava

Guaraci, ainda, quis demonstrar a ela o quanto de belo existia quando ele estava de olhos abertos…

E como ele se sentia solitário quando ela se retirava...

E assim foi concebido Rudá, o mensageiro do amor

Afinal, o Amor não reconhece a luz ou a escuridão, e assim, podia levar para Jaci as mensagens de Guaraci

Seja durante a noite, ou no decorrer do dia, Rudá, o Amor, podia falar para a Lua, Jaci, o quanto o Sol, Guaraci, era apaixonado por ela

E assim, ao enviar as palavras de Guaraci a Jaci, ela, a seu turno, encaminhou uma mensagem de volta, comunicando o quanto ela se admirava por tudo o que ele fazia…

Que ela passava o anoitecer contemplando todas as águas, terras, ventos e seres que ali viviam, bem como que sentia os sons das noites, em contraponto aos sons das manhãs…

E Rudá, o Amor, transportava a mensagem de Jaci para Guaraci, o qual ficava tão contente que novamente abria seus olhos e clareava por toda a manhã… E mais uma vez enviava, por Rudá, novo recado de seu amor

E também por meio de Rudá, Jaci enviava outra mensagem amorosa, retratando que a claridade que ela emanava vinha igualmente de Guaraci, do amor que ele detinha. E que ela também sentia solidão e saudade quando ele abria seus olhos e clareava tudo, mas que ela o amava e queria que ele tivesse conhecimento disso.

E Rudá transmitiu a mensagem

Assim, Guaraci criou mais e mais estrelas, cada uma com brilhos e tamanhos distintos, para reluzir os céus e alegrar Jaci, a fim de servir de companhia a ela enquanto ele adormecia

E até mesmo hoje, Rudá, descendente do Sol, concebido para ser o porta-voz do amor de Guaraci por Jaci, vivencia o dia e a noite, desempenhando o seu propósito

Ele é responsável por reproduzir os seres criados, já que o Sol e a Lua sempre desejam demonstrar, um para o outro, algo diferente.

E em todos os dias, e em todas as noites, Rudá, que mora entre as nuvens, fortifica esse amor com as suas mensagens

Rudá igualmente possui a incumbência de instituir o amor no coração de homens e mulheres

Evocando o amor, como o de Guaraci por Jaci e de Jaci por Guaraci

O amor construído com respeito e admiração pelo resplendor um do outro, já que cada um possui sua própria maneira de resplandecer

O amor constituído de saudade, de graça, de fascinação

O amor igualmente pela água, pela terra, pelos seres vivos, pela natureza, pelos homens e mulheres e entre todos, afinal, todos são apreciados, noite e dia, por Jaci e Guaraci

Assim é a história de Rudá: a Divindade do Amor na Mitologia Tupi-Guarani