Análise Comparativa dos Mitos: Eros x Rudá

   Em tese, Eros e Rudá representam a mesma entidade arquetípica capaz de simbolizar o “amor romântico” em sua concepção divina. Entretanto, tal como o pluralismo semântico do “amor”, cabe a nós diferenciarmos o abismo simbólico que distancia tais representações alegóricas, levando em conta a peculiaridade da etiologia e influência cultural de cada mito.

   Eros é, sobretudo, a representação do desejo, ele é também a manifestação tipicamente mais antropomorfizada do “amor”, capaz de reproduzir os aspectos mais cínicos, fúteis e depravados daquilo que entendemos mais precisamente como “paixão”: o amor em sua expressão selvagem, semipatológica e irracional. Em Eros, o amor é desejo, e como tal, só existe mediante a falta. Sua origem é incapaz de ser compreendida, sendo apenas vivenciada como um estado convulsivo da alma, capaz de tornar o sujeito alienado e vulnerável. Dessa forma, por sua falta de critério, em Eros o amor é quase sempre desafortunado e inalcançável. E ainda assim, mesmo diante da mais extraordinária sorte, encontrada em sua desditosa consumação, o amor de Eros está fadado a ser aniquilado pelo tédio. Podemos investigar melhor esse padrão através do episódio clássico da relação entre Eros e Psique.

   A bela Psique é uma jovem mortal que inadvertidamente desperta a ira e inveja de Afrodite, excita o desejo de Eros, e como consequência acaba alienando a própria existência em função de uma paixão desmesurada que a lançará numa jornada fabulosa e apoteótica, buscando a divindade não como forma de transcendência, mas sim como atitude de autocomiseração para obter a aceitação caprichosa de Eros e Afrodite. Por sua vez, Eros é tradicionalmente retratado como um perturbador da ordem social, capaz de promover a paixão de modo aleatório e irresponsável, fazendo de suas flechas mágicas um instrumento banal de suas travessuras. E o pior de tudo, Eros se comportava como um sedutor ardiloso e uma divindade desonesta, ao lançar mão covardemente de seus poderes para obter benefícios próprios de caráter voluptuoso.

   Quando Eros se apaixonou por Psique, em parte vítima do próprio feitiço, o amante foi frio e manipulador com as emoções de sua amada, mantendo-se afetivamente arredio e estabelecendo condições puramente caprichosas em troca do seu apreço. Psique abdicou da própria vida social e aceitou de bom grado o cárcere privado. Mesmo assim, diante do primeiro vacilo, foi peremptoriamente rejeitada por seu amante, precisando submeter e sacrificar a própria vida a um mero joguete de Afrodite, visando à remota possibilidade de obter o perdão do filho da deusa do amor. Durante a jornada, arriscando inadvertidamente a própria vida, insegura da sua própria beleza (o seu ponto forte) e ávida em obter a aprovação de Eros, Psique viola a caixa de Pérsefone, e, ao ficar à beira da morte, é finalmente salva e acolhida por um ato de piedade do seu amado.

   No final das contas, apesar de bem-aventurada em sua missão amorosa, a história de Psique é trágica e melancólica. Afinal, a jovem anulou a própria vida em função do amor, resumiu a sua existência à mera superficialidade estética de sua beleza e sua jornada de apoteose não teve um apelo transcendental, apenas representou um esforço exasperante em se tornar a concubina celestial de um deus velhaco e libertino. Desse modo, a jornada de Psique nos ensina muito a respeito das armadilhas levianas da paixão erótica, porém, contrariando a tradição da cultura ocidental, definitivamente não deveria nos servir de inspiração.

   Enquanto isso, a história de Rudá está inserida no prodigioso mito fundador da cultura indígena tupi-guarani. O amor é retratado como a mais sublime recompensa divina capaz de reconfortar a existência do próprio deus Sol. O amor se manifesta como um ato de celebração do poder criativo de Guaraci. O grande deus, apesar de virtuoso e magnificente, ainda padecia secretamente do infortúnio que reconhecemos como genuinamente humano: a dor da solidão, expressa na necessidade de compartilhar a vida com alguém, além de buscar expandir a sua existência com base na projeção do afeto através do cuidado e da busca por reconhecimento, a descoberta do senso de alteridade capaz de inaugurar a ética, a descoberta do bem e do mal a partir da consciência do impacto que causamos na vida de um semelhante.

   Desse modo, o desejo secreto de Guaraci ganhou forma num plano obscuro e inacessível de sua consciência. E assim, a lua, Jaci, foi criada por intermédio dos sonhos, e sua existência se manteve oculta durante muito tempo, embora Guaraci a percebesse de maneira intuitiva, ou mesmo como um ato de fé. Curiosamente, a onipotência de Guaraci não conferia a ele o privilégio sórdido de manipular a existência de Jaci. Portanto, por meio de uma iniciativa humilde e condescendente, Guaraci criou Rudá, um deus amigo e semelhante que pudesse auxiliá-lo no esforço de despertar o fascínio em sua amada, atuando como confidente, mensageiro e intermediador da relação do casal. Dessa forma, Rudá foi criado com o propósito altruísta de cultivar o amor entre os deuses, e posteriormente promover sua benevolência junto à humanidade.

   Inspirado em sua primeira missão romântica entre Guaraci e Jaci, Rudá aprendeu que a maioria dos humanos também cultiva em seus sonhos a matriz idealizada e mal compreendida dos seus desejos afetivos, assim como conservam a esperança de um dia poderem flagrar pessoalmente a materialização de sua fantasia romântica. No entanto, Rudá foi ignorado e se manteve distante durante muitas gerações, as pessoas ficaram a mercê da aleatoriedade dos encontros, foram sabotadas pela ignorância do outro e de si mesmas, e por último, foram prejudicadas por barreiras comunicativas incapazes de conectar pessoas com a devida eficiência. Até hoje, Eros vem reinando de modo soberano, escarnecendo do amor, tripudiando sobre as expectativas românticas de cada um, esvaziando o afeto das relações e preenchendo-as de luxúria cega e efêmera, uma verdadeira fórmula para o desastre, capaz de alienar o sujeito de sua própria vida, em nome da perseguição obsessiva e injustificada de um desejo selvagem e ordinário.

   É chegado o momento de inaugurarmos a era dos afetos pós-românticos, cultuados e intermediados pelos valores de Rudá. O amor deve ser encarado como uma conquista edificante para o caráter, pautado pela conexão e comunicação eficaz entre os pares, por sua vez, construído com base no profundo conhecimento de cada um, capaz de viabilizar uniões criteriosas, emocionalmente construtivas e duradouras, com base na confiança depositada nos princípios que norteiam Rudá e sua razão de existir.

   E assim, também é curioso percebermos que a criação de Rudá foi inspirada numa iniciativa genuinamente fraternal. Portanto, podemos presumir que Guaraci estava não apenas em busca do amor, mas também tinha o anseio de estabelecer relações fraternas: ter um amigo a quem pudesse considerar como um verdadeiro irmão, um parceiro de valor semelhante a sua própria dignidade, alguém que ele pudesse confiar e compartilhar o seu grande propósito. Dessa forma, Rudá foi concebido numa posição que o colocava em estado de igualdade a seu criador, dada a sinergia existente entre eles. Guaraci, apesar de tremendamente poderoso, sabia que não era autossuficiente, por isso perseguiu o amor de Jaci; mas ele também sabia que não era onipotente, por isso soube recrutar e empreender esforços em colaboração com um deus-irmão. Desse modo, Guaraci é a mais sublime representação virtuosa do espírito empreendedor: detentor de uma grande força criativa, humilde ao reconhecer suas limitações, capaz de estabelecer laços entorno da concretização de um ideal, e acima de tudo, reconheceu no amor a fonte inesgotável de sua energia.